sábado, 31 de dezembro de 2011

A Goldman Sachs, governa a Europa

Sabem quem é Papademos Lucas (actual líder grego após a renúncia de Papandreou)
Sabem quem é Mariano Monti (agora à frente do governo italiano)?
Sabem quem é Mario Draghi (actual presidente do Banco Central Europeu)?
Sabem o que é Goldman Sachs?

Goldman Sachs: é um dos maiores bancos de investimento mundial e co-responsável directo, com outras entidades (como a agência de notação financeira Moody?s), pela actual crise e um dos seus maiores beneficiários. 

Como exemplo, em 2007,a G.S. ganhou 4 bilhões de dólares em transacções que resultaram directamente do actual desastre da economia do EUA. O EUA ainda não recuperaram das percas infligidas pelo sector especulativo e financeiro dos EUA.

Papademos: actual primeiro-ministro grego na sequência da demissão de Papandreou. Atenção não foi eleito pelo povo.
- Ex-governador do Federal Reserve Bank de Boston, entre 1993 e 1994.
- Vice-Presidente do Banco Central Europeu 2002-2010.
- Membro da Comissão Trilateral desde 1998, lobby neo-liberal fundado por Rockefeller, (dedicam-se a comprar políticos em troca de
subornos).
- Ex-Governador do Banco Central da Grécia entre 1994 e 2002. Falseou as contas do défice público do país com o apoio activo da Goldman Sachs, o que levou, em grande parte à actual crise no país.

Mariano Monti: actual primeiro-ministro da Itália após a renúncia de Berlusconi. Atenção não foi eleito pelo povo.
- O ex-director europeu da Comissão Trilateral mencionada acima.
- Ex-membro da equipe directiva do grupo Bilderberg.
- Conselheiro do Goldman Sachs durante o período em que esta ajudou a esconder o défice orçamental grego.

Mario Draghi: actual presidente do Banco Central Europeu para substituir Jean-Claude Trichet.
- O ex-director executivo do Banco Mundial entre 1985 e 1990.
- Vice-Presidente para a Europa do Goldman Sachs de 2002 a 2006, período durante o qual ocorreu o falseamento acima mencionado.

Bem, que coincidência, todos do lado do Goldman Sachs. Aqueles que criaram a crise são agora apresentados como a única opção viável para sair dela, no que a imprensa americana está começando a chamar de "O governo da Goldman Sachs na Europa."

Como é que eles fizeram?

Eu explico:

Encorajaram Investidores a investir em produtos secundários que sabiam ser " lixo ", ao mesmo tempo dedicaram-se a apostar em bolsa o seu fracasso. Isto é apenas a ponta do iceberg, e está bem documentado, podem investigar. Agora enquanto lêem este e-mail estão
esperando na base da especulação sobre a dívida soberana italiana e seguidamente será a espanhola.

Tende-se a querer-nos fazer pensar que a crise foi uma espécie de deslizamento, mas a realidade sugere que por trás dela há uma vontade perfeitamente orquestrada de tomar o poder directo no nosso continente, num movimento sem precedentes na Europa do século XXI.

A estratégia dos grandes bancos de investimento e agências de rating é uma variante de outras realizadas anteriormente noutros continentes, tem vindo a desenvolver-se desde o início da crise e é, do meu ponto de vista, como se segue:

1. Afundar o país mediante especulação na bolsa de valores / mercado. Pomo-los loucos com medo do que dirão os mercados, que nós controlamos dia a dia.

2. Forçá-los a pedir dinheiro emprestado para, manter o Status-Quo ou simplesmente salvá-los da Banca Rota. Estes empréstimos são
rigorosamente calculados para que os países não os possam pagar, como é o caso da Grécia que não poderia cobrir a sua dívida, mesmo que o governo vendesse todo o país, e não é metáfora, é matemática, aritmética.

3. Exigimos cortes sociais e privatizações, à custa dos cidadãos, sob a ameaça de que se os governos não as levam a cabo, os investidores irão retirar-se por medo de não serem capazes de recuperar o dinheiro investido na dívida desses países e noutros investimentos.

4. Cria-se um alto nível de descontentamento social, adequado para que o povo, já ouvido, aceite qualquer coisa para sair da situação.

5. Colocamos os nossos homens, onde mais nos convenha.

Se acham que é ficção científica, informem-se: estas estratégias estão bem documentadas e têm sido usadas com diferentes variações ao longo do século XX e XXI noutros países, nomeadamente na América Latina pelos Estados Unidos, quando se dedicavam, e continuam a dedicar-se na medida do possível, a asfixiar economicamente mediante a dívida externa por exemplo a países da América Central, criando instabilidade e descontentamento social usando isso para colocar no poder os líderes "simpáticos" aos seus interesses. 

Portanto nada disto tem a ver com o EURO. O EURO é uma moeda Forte, porque os investidores vêm ai carne para desossar, se não houvesse o Euro o ataque acontecia na mesma, só que se calhar os primeiros a cair não seriam os PIGS, mas a própria Alemanha, a Inglaterra etc. Não são o Governo dos EUA, que deferem estes golpes, mas sim pela indústria financeira internacional, principalmente sediada em Wall Street(New York) e na City (Londres), é que, o que está acontecendo sob o olhar impotente e / ou cúmplice dos nossos governos é o maior assalto de sempre na história da humanidade à escala global, são autênticos golpes de estado e violações flagrantes da soberania dos Estados e seus povos.

As pessoas precisam saber. Estamos a sofrer uma anexação pela via financeira, e esta é a realidade.

Obrigado pela leitura.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Duarte Lima: Como fazia a lavagem de dinheiro

O ex-deputado foi investigado em 1994 num processo que é um verdadeiro manual de branqueamento de dinheiro sujo.

A prática de lavagem de dinheiro há muito que não é estranha a Duarte Lima. Desde os anos 90 que o ex-líder parlamentar do PSD conhece, ao pormenor, as técnicas daquilo a que os juristas chamam "dissimulação de capitais", mas que é vulgarmente conhecido por branqueamento ou lavagem de dinheiro. Essa é a arte de fazer com que o dinheiro obtido de forma ilegal regresse aos circuitos financeiros e bancários com o estatuto de plena legalidade.

O processo às ordens do qual Duarte Lima está agora preso mostra algumas dessas formas de lavagem, mas já na primeira investigação de que foi alvo, nos anos noventa, é provado um apurado conhecimento dessa arte de esconder o dinheiro sujo. Nesse primeiro processo em que Lima foi constituído arguido, corria o ano de 1994 e o cavaquismo já agonizava, é descrito ao pormenor aquilo que hoje se pode considerar um pioneiro manual de técnicas de lavagem de dinheiro, como então alertava o inspector da PJ Carlos Pascoal, que assina o relatório final da investigação.

O caso estava centrado em suspeitas de corrupção relacionadas com as aquisições de apartamentos e de terrenos em Lisboa e Sintra. O mais interessante, porém, foi o que a investigação mostrou em matéria de enriquecimento ilícito assente no tráfico de influências e correspondente branqueamento de dinheiro, tudo crimes não existentes no ordenamento jurídico português à época dos factos. 

Carlos Pascoal, hoje com 57 anos e reformado da PJ, que investigou este processo com o colega José Peneda e sob a direcção do magistrado do Ministério Público Luís Bonina, enumerou as técnicas de lavagem uma a uma.

O relatório de Pascoal é claro em matéria de fluxos financeiros: "Em razão da análise bancária realizada pode concluir-se que foi detectada a aplicação de várias técnicas de dissimulação de capitais, envolvendo um conjunto de contas bancárias tituladas pelo arguido Duarte Lima, pela sua ex-esposa, ou por familiares de um ou de outro".

Essas técnicas consistiam em fazer entrar o dinheiro nas contas sob a forma de numerário, permitindo ocultar as proveniências e os motivos das realizações de pagamentos. 
"Entre 1992 e 1994 foram creditadas dessa forma, no conjunto das contas investigadas, verbas superiores a 750 mil contos" (3,75 milhões de euros).

As contas directa ou indirectamente controladas por Duarte Lima nunca tinham saldos elevados. A técnica usada passava por fazer circular os valores de conta para conta até à utilização final do dinheiro em despesas ou aquisições. A maior parte dos créditos - numerário ou cheques - foi escoada por contas tituladas pelo próprio Duarte Lima.
Os investigadores dão um exemplo: uma conta do Banco Fonsecas & Burnay titulada por Fernando Henrique Nunes (ex-sogro de Lima) foi utilizada como ‘placa de passagem' de valores que acabaram em contas de Duarte Lima. Só no conjunto de contas em nome do ex-sogro e da ex-mulher, Alexina Bastos Nunes, foram transferidos para contas de Lima 474 mil contos. A partir de Novembro de 1993, o mesmo procedimento manteve-se mas com mais titulares nas contas, designadamente duas sobrinhas do ex-deputado, Alda e Sandra Lima de Deus e alguns dos irmãos.

Duarte Lima, apesar de estar em exclusividade de funções no Parlamento e de ter a inscrição suspensa na Ordem dos Advogados, mantinha uma intensa e profícua relação com muitas empresas.

Na investigação são detectados dezenas de depósitos feitos pelos administradores da então Mota e Companhia para as contas controladas por Duarte Lima. A um ritmo mensal, Manuel António da Mota, fundador da empresa já falecido, e o seu filho, António Mota, actual patrão da Mota-Engil, pagaram perto de 150 mil contos a Duarte Lima entre 1991 e 1993.

Lima só em 1993 começou a emitir recibos verdes sobre uma pequena parte do dinheiro recebido, justificando no processo apenas dois pagamentos a título de prestações de serviços. Nessa fase em que começou a passar recibos verdes também começou a receber dinheiro por antecipação a serviços a prestar no futuro.

Nas declarações efectuadas aos investigadores, tanto António Mota como Manuela Mota, também administradora da empresa, justificaram os pagamentos de 1991, 1992 e parte de 1993 a título de aquisições de obras de arte feitas a Lima e ao ex-sogro. Disseram também que Lima era consultor para a área internacional, apontando concretamente Angola como um dos países em que Lima ajudava a construtora. O ex-deputado, porém, tinha a inscrição suspensa na Ordem dos Advogados e nunca declarou ao Fisco estes rendimentos.

Tanto em relação à Mota e Companhia, como à Associação Nacional de Farmácias (ANF) - que pagou também milhares de contos a Lima e ainda as obras feitas num dos seus apartamentos de Lisboa -, o ex-líder parlamentar do PSD funcionou como um avençado no Parlamento. De outras empresas, como a Altair Lda. e a Portline S.A., Duarte Lima recebeu dinheiro a título de "despesas confidenciais" e "saídas de caixa".

Um dado essencial da ocultação de dinheiro detectada nesta investigação foi o da aquisição de antiguidades e obras de arte. 

"Tudo aponta no sentido de ser um coleccionador, visto que raramente procederá a vendas", escreve o inspector Carlos Pascoal. São registadas nas perícias financeiras algumas transacções. Só a três comerciantes de arte Lima comprou 250 mil contos em antiguidades e peças num curto espaço de tempo.

Também aqui a lei era favorável a Duarte Lima:

"As dificuldades de controlo das actividades de transacções deste tipo de objectos e consequente possível utilização como técnica de dissimulação de capitais são reconhecidas no preâmbulo do decreto-lei 325-95 (branqueamento de capitais), designadamente mencionando a não sujeição de tais actividades a regras específicas e a inexistência de uma autoridade de supervisão", alertam os investigadores. A criminalização do branqueamento e do tráfico de influências só ocorrem depois de Outubro de 1995, quando o Governo já é do PS e liderado por António Guterres. A bancada do PSD chefiada por Duarte Lima várias vezes recusou criminalizar este tipo de crimes.

A abertura de contas na Suíça e a utilização de paraísos fiscais para branquear dinheiro são hoje expedientes vulgares. À época, porém, o seu conhecimento em casos concretos era raro. Com um segredo bancário inexpugnável, a Suíça era um paraíso para ocultar capitais. Duarte Lima tinha contas no Swiss Bank Corporation, em Basileia, e daí transferiu dinheiro para a Cosmatic Properties, Ltd., uma empresa offshore que utilizou para várias aquisições.  As autoridades suíças, porém, nunca forneceram os elementos bancários pretendidos pela investigação portuguesa porque Duarte Lima e a ex-mulher se opuseram a que tal acontecesse, impedindo judicialmente que a carta rogatória expedida pelas autoridades portuguesas fosse cumprida.

Os ganhos na bolsa foram a grande justificação de Duarte Lima para uma parte do património. Declarou ter ganho 60 mil contos, mas foram detectados investimentos feitos em seu nome mas formalmente pertencentes a outras pessoas. Em dois dos casos detectados tratava-se de empresas de construção civil: a Severo de Carvalho, a que Lima tinha grande ligação, e a Sociedade de Construções Translande. Foram descobertas contas co-tituladas por Lima e algumas dessas pessoas ou empresas, mas tinham um movimento quase nulo. Pelo contrário, os investimentos mais significativos na bolsa corriam exclusivamente por contas do ex-deputado.

A diferença entre os valores declarados ao Fisco e o movimentado nas contas é esmagadora e mostra um enriquecimento que Duarte Lima nunca conseguiu explicar. Os rendimentos declarados em sede de IRS, que não incluíram os movimentos de bolsa por não se encontrarem sujeitos a tributação, totalizaram 182 mil contos, entre 1987 e 1995. Mas o dinheiro movimentado nas contas tituladas por Lima apenas entre 1986 e 1994 é superior a um milhão de contos.

Não há como registar as palavras dos próprios investigadores: 

"O total de depósitos realizados nas contas tituladas pelo arguido Duarte Lima, entre 1986 e 1994, ultrapassou um milhão de contos, atingindo nos anos de 1992 a 1994 os 640 mil contos". Tudo claro, numa investigação que não teve escutas telefónicas nem buscas a casa do arguido.
É o primeiro registo oficial do deputado Domingos Duarte Lima na Assembleia da República: III [1983-05-31 a 1985-11-03] - Círculo Eleitoral: Bragança - Grupo Parlamentar: PSD. Em Maio de 1983, quando se estreia no seu lugar no hemiciclo de S. Bento, Duarte Lima ainda não tinha completado os 28 anos. Haveria de os celebrar seis meses mais tarde, em Novembro. Mas a sua vida política não começa no Parlamento: dois anos antes, em 1981, inicia actividade na capital como assessor político e de imprensa do ministro da Administração Interna, Ângelo Correia.

Nunca mais haveria de parar no seu caminho para o poder e para a fortuna, este rapaz nascido na Régua, em 1955, mas que viveu em Miranda do Douro até 1974. Foi primeiro deputado à Assembleia da República por Bragança de 1983 a 1995 - durante a III, IV, V e VI legislaturas. Depois promovido nas estruturas do partido fundado por Francisco Sá Carneiro, entrou nas listas por Lisboa, de 1999 a 2002, na VIII Legislatura. Voltaria novamente a concorrer por Bragança, de 2005 a 2009, na X Legislatura.

A carreira meteórica de deputado coincidiu com uma ascensão política fulminante. Foi o todo-poderoso vice--presidente da Comissão Política Nacional do PSD entre 1989 e 1991, presidindo ao respectivo grupo parlamentar, de 1991 a 1994, durante a segunda maioria absoluta de Cavaco Silva. Com acesso a todos os gabinetes de ministros e secretários de Estado, é um nome mágico para empresários e particulares sequiosos de influência e proveitos. Vêm então os escândalos e cai em desgraça. Primeiro um construtor civil de Mogadouro envia-lhe um fax para o Parlamento a pedir um "jeito" num concurso de obras. Depois, o semanário ‘O Independente' conta a história da casa de Nafarros.

Sucede-lhe José Pacheco Pereira, que tinha sido seu ‘vice', e Lima inicia uma travessia do deserto. Perito em súbitas reviravoltas, porém, já em 1998 e com os socialistas no poder, vence Pedro Passos Coelho e Pacheco Pereira nas eleições para a Comissão Política Distrital de Lisboa do PSD, que dirigiu até 2000, deixando o lugar para aquela que seria a futura líder social-democrata, Manuela Ferreira Leite. Lima terá gasto milhares de contos em regularização de quotas e inscrição de novos militantes, grande parte deles recrutados em bairros sociais.

Licenciado em Direito pela Universidade Católica, mas advogado mais de título do que de exercício, Duarte Lima ocupou muitos outros cargos, sempre numa vida faustosa, que foi justificando como podia, ou conseguia. Na lista oficial que apresentou ao Parlamento consta a sua condição de "membro da delegação portuguesa à Assembleia da NATO", mas também a ocupação de "docente universitário". Refere-se ainda ter sido condecorado com a Ordem do Mérito, atribuída pelo presidente da República de Itália.

Segundo reza a história da sua origem humilde, quinto filho numa família de nove irmãos e órfão de pai aos 11 anos, ajudava a mãe, Maria de Jesus, a vender peixe em Miranda do Douro. O pai, Adérito Lima, fora funcionário da companhia eléctrica nacional até morrer de cancro.  Quando entrou para a Universidade Católica, com uma bolsa que o livrou de pagar propinas, era olhado de lado e com indisfarçável estranheza pelos colegas. Pobre e provinciano, não se vestia como os outros. 

A mais tarde famosa jornalista Margarida Marante terá sido a única que lhe prestou alguma atenção. Tornou-se sua amiga. Duarte Lima oferecia-lhe alheiras feitas pela mãe. Margarida apresentava-lhe amigos, sobretudo na área do PSD. Músico predestinado desde a infância, em 1980 era maestro do coro da Católica. Pedro Santana Lopes e Pacheco Pereira assistiram a alguns dos seus concertos de órgão.

Licenciou-se tarde, com 31 anos e 14 valores, como tarde tinha entrado na universidade, depois de frequentar o Liceu D. Pedro V, onde terminou o secundário com 19 valores. O estágio de advocacia foi feito no escritório do socialista José Lamego, que seria mais tarde secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros de António Guterres e então era casado com Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República.
Em finais de 1998, depois de muitos dos escândalos conhecidos nos jornais, foi atingido por uma leucemia em estado avançado, recebendo um transplante de medula, amplamente noticiado. Já curado, funda a Associação Portuguesa Contra a Leucemia, que iria criar o banco nacional de dadores de medula. Muitos médicos e dirigentes da associação sublinham a importância da exposição pública que Duarte Lima deu à doença e o papel que desempenhou.

Casou a 18 de Novembro de 1982 com Alexina Bastos Nunes, em Fátima, numa cerimónia religiosa realizada pelo bispo de Bragança, D. António José Rafael. Desta união iria resultar o único filho de Domingos Duarte Lima, Pedro Miguel. Numa relação que viria a constar dos processos de investigação da PJ, divorciou-se de Alexina em 1995, casando mais tarde, em 2000, com Paula Gonçalves. Desde que Duarte Lima se terá envolvido com a brasileira Marlete Oliveira, a sua provisória secretária que entretanto já regressou ao Brasil , o casal só partilhava o mesmo apartamento.

Com 56 anos, Duarte Lima - Domingos, para os amigos - é um homem rico e poderoso. Na luxuosa casa da Av. Visconde Valmor, no centro de Lisboa, ofereceu jantares feitos pelo célebre chef, Luís Suspiro. Constam das memórias dos convidados as antiguidades dispostas nos salões e as explicações excêntricas dos pratos que Suspiro vinha à sala apresentar. José Sócrates foi um dos comensais mais famosos.

Quando Domingos Duarte Lima anunciou que estava gravemente doente, com uma leucemia, apareceram as primeiras imagens do filho, Pedro Lima, então com apenas 13 anos, uma criança. 
Quando o ex-líder parlamentar do PSD foi detido, o filho foi com ele, agora já com 26 anos, também arguido no mesmo processo.
Pedro Lima é suspeito de branqueamento de capitais, burla qualificada e fraude fiscal agravada, mas tudo indica estar de novo a dar a cara pelo pai. Lima, o filho, foi libertado e diz-se que não tem dinheiro para pagar a caução de 500 mil euros, ainda que seja sócio e administrador de cinco empresas. Há quem acrescente que Lima, o pai, fez dele testa-de-ferro dos seus negócios. No dia do aniversário de Duarte Lima, Pedro lá estava como visita.
Duarte Lima (DL) está preso. Mas mais do que o homem, o que está sob suspeição é o que ele simboliza e a classe política a que pertence.
Em primeiro lugar, porque DL foi o primeiro grande representante da promiscuidade excessiva entre a política e os negócios. Como tantos outros que se lhe seguiram, o então líder parlamentar do PSD acumulava o seu papel de representante do Povo e do Estado Português com as funções de consultor de grupos que faziam negócios com esse mesmo Estado, como o grupo Mota. Assessorava até entidades cuja actividade depende de despachos administrativos do Governo, como a Associação Nacional de Farmácias e outros. 

Quem servia então Duarte Lima? O Povo que o elegera ou as empresas que lhe pagavam?

Além do mais, DL esteve ligado a negócios com o banco que constitui o maior escândalo empresarial deste regime, o BPN. Consta ainda que, como todos os grandes vigaristas do regime, andou a comprar terrenos baratos, valorizando-os depois através da influência política nas câmaras e no Governo. Realizava assim fortunas com as vendas imobiliárias, mas também com os esquemas de financiamentos que hipervalorizavam as garantias.
Duarte Lima está preso. Mas os vícios de um regime que ele, melhor do que ninguém, representa continuam impunemente à solta. Toda a sua vida política e empresarial, todo o seu enriquecimento, são representativos do quanto este regime se degradou.

No CM, Por:Eduardo Dâmaso e Paulo Pinto Mascarenhas

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Alfredo Barroso, o nepos, básico.

Nepos (nominativo singular), em latim, quer dizer sobrinho. 

Daí a palavra nepotismo, posição de relevo dada pelos papas a pessoas da família. 

Com o andar dos tempos, nepotismo passou a significar protecção de terceiros, amigos ou familiares, independentemente da valia pessoal de cada um. 

O nepotismo é, por cá, prática comum. Atingiu o auge com Mário Soares. 

Como é sobejamente sabido, o alegado pai da III República, o herói da descolonização exemplar, o grande socialista europeu, tem, ao longo da sua já longa vida, sabido compensar os seus próximos, tanto quanto, da forma mais cruel, os vota ao ostracismo quando, por qualquer motivo, lhe desagradam. 

Exemplos não faltam. Toda a gente sabe que a simpática bonomia do grande homem se transforma no mais radical desprezo com a maior das facilidades. Felizes os que lhe estão nas graças. Tremam os que o enfrentam! 

Vem isto a propósito da guerra movida pelo seu sobrinho Alfredo Barroso, que se queixa amargamente de ter sido esquecido no livro de memórias de Mário Soares, que não é um livro de memórias na opinião do autor, o que não quer dizer que não seja um livro de memórias. 

Alfredo Barroso, alcandorado por Mário Crespo à categoria de opinante permanente da SIC Notícias, é, nos nossos dias, conhecido pelo seu virulento esquerdismo, pela forma desagradável como trata quem tiver à frente, chegando a ser chocante o fel que brota do seu pensamento e das suas medonhas palavras. Aparte isto, ninguém já se lembra do que o homem foi, nem ninguém sabe quem é.

O seu protesto contra o tio - por exemplo, diz que quem inventou a “magistratura de influência” foi ele e não Soares, coisa que, na sua cabecinha, deve ter uma importância cósmica - veio despertar a curiosidade dos jornais. 

Uma das coisas que se publicou por aí foi a biografia “profissional” do ofendido. Através dela, podemos verificar que Alfredo Barroso foi “pescado” por Soares juntamente com um grupo de refractários - tipos que, por ter fugido da tropa, passaram a “exilados políticos" - para servir de jovens raminhos de salsa ao grupo de pessoas que, na Alemanha, anos sessenta, fundou o PS. 

À relação familiar vinha juntar-se a irmandade política. O jovem Alfredo nunca mais foi abandonado. Para além dos lugares que o tio lhe arranjou, jamais fez fosse o que fosse. O mais acabado exemplo de nepotismo que se pode imaginar. Deve ter-se zangado com o tio, ou o tio com ele, a ponto de tudo o que terá feito ter sido esquecido nas memórias do protector. A ponto de suscitar a ultra ridícula, risível e patética guerra de que os jornais foram eco.

O que não quer dizer que a independência e a moral socialista e republicana não dêem para o sobrinho perceber, já que nada foi na vida para além de sobrinho, que devia estar calado quando se apresenta, na televisão, a criticar aquilo a que chama nepotismo de terceiros.

Lata não lhe falta. O pior é o ridículo. 

Em,19.12.11 - António Borges de Carvalho

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ser Português

Ser português é Zé Povinho… ”… ele é paciente, crédulo, submisso, humilde, manso, apático, indiferente, abúlico, céptico, desconfiado, descrente e solitário, também não deixa por isso de nos aparecer, em constante contradição consigo mesmo, simultaneamente capaz de se mostrar incrédulo, revoltado, resmungão, insolente, furioso, sensível, compassivo, arisco, activo, solidário, convivente…
Ser português é ser um desenho animado, é ter tiques, bigode e sotaque, ser baixinho e barrigudo, e construir frases só com palavrões.
Ser português é ser diferente, estranhar a diferença, mas respeitar a diferença.
Ser português é miscigenação, é não ser racista mas abrir uma excepção para com os ciganos. É ser motivo de piada pelos brasileiros, mas fazer humor sobre alentejanos e negros.
Ser português é ser patriota mas não conhecer a bandeira, o hino nem os heróis.
Ser português é ser navegador e conquistador.
Ser português é emigrar um mês e voltar, e esquecer a sua língua nativa, o português.
Ser português é fazer história mas não a conhecer, é esquecer os seus heróis mas lembrar os ditadores.
Ser português é ser poeta mas não saber ler nem escrever.
Ser português é ser poliglota, é ser contra o acordo ortográfico mas não diferenciar palavras homónimas, homófonas, homógrafas e parónimas.
Ser português é axaxinar o Portuguex ao eskrever.
Ser português é ser do contra, mas não se manifestar, é reclamar mas esperar que os outros apresentem queixa por si.
Ser português é prosas, piropos e poesias… É fadistas sem fado.
Ser português é música, é pertencer a um rancho, é cantar ao desafio, é improvisar.
Ser português é saudade, é saber receber, é dar sem se ter.
Ser português é não se governar nem se deixar governar, é comprar quando não se deve e vender quando não se quer.
Ser português é troçar do agricultor, é ser doutor, engenheiro ou professor.
Ser português é não respeitar quem o respeita, . É berrar, gritar e chorar, é reclamar mas não se queixar. É dar um murro na mesa mas, pedir desculpa por pedir desculpa.
Ser português é desconhecer o sentido de civismo, é estacionar em cima do passeio e tentar passar à frente na fila de espera. É cunhas, tachos e colheres.
Ser português é ser educado em privado mas cuspir e urinar em público.
Ser português é paz na rua mas guerra em casa.
Ser português é ser trabalhador mas não ser competitivo, é ser competente mas não gostar de trabalhar.
Ser português é desenrascar, improvisar, suar, sofrer e chorar, mas fazer.
Ser português é comprar casa, carro, mulher, é viver endividado mas viver à grande e à francesa!
Ser português é desrespeitar o código da estrada e fazer sinal de luzes para avisar os maus condutores.
Ser português é ter mau gosto, é merendas em vez de piqueniques, é bandeiras à janela e roupa interior a secar à varanda.
Ser português é cheiro a castanhas assadas nas ruas da cidade e a sardinha nas festas populares.
Ser português é ter fé, ter fé que o pior já passou. É ser católico mas já ter ido à bruxa.
Ser português é não fazer exercício físico.
Ser português é ser relaxado mas mal encarado, é acender o cigarro a qualquer hora e em qualquer lugar sem quaisquer preocupações.
Ser português é alegria, sorrisos e gargalhadas.
Ser português é família. É visitar os pais e avós ao fim-de-semana e viver em casa dos pais até aos 30. É futebol ao domingo à tarde e violência doméstica ao final do dia.
Ser português é ser vizinho, é chamar tio ao vizinho da frente e ao desconhecido.
Ser português é gastronomia, regar o bacalhau com azeite, é caldo-verde, é cozido.
Ser português é petiscos, é caracóis, marisco, moelas e tremoços. É sopa ao pequeno almoço, é cerveja fresca ao meio da manhã e vinho ao almoço e jantar.
Ser português é saber fazer, é suor e calçadas à portuguesa.
Ser português é - segundo o velho ditador, «…aquela doçura de sentimentos, aquela modéstia, aquele espírito de humanidade, tão raro hoje no mundo; aquela parte de espiritualidade que, mau grado tudo que a combate inspira ainda a vida portuguesa; o ânimo sofredor; a valentia sem alardes; a facilidade de adaptação e ao mesmo tempo a capacidade de imprimir no meio exterior os traços do modo de ser próprio; o apreço dos valores morais; a fé no direito, na justiça, na igualdade dos homens e dos povos; tudo isso, que não é material nem lucrativo, constitui traços do carácter nacional. Se por outro lado contemplamos a História maravilhosa deste pequeno povo, quase tão pobre hoje como antes de descobrir o mundo; as pegadas que deixou pela terra de novo conquistada ou descoberta; a beleza dos monumentos que ergueu; a língua e literatura que criou; a vastidão dos domínios onde continua, com exemplar fidelidade à sua História e carácter, alta missão civilizadora – concluiremos que Portugal vale bem o orgulho de se ser português.»
Helder Costa - in engenium.net

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

(Des) Acordo Ortogràfico

Quando eu escrevo a palavra acção, por magia ou pirraça, o computador retira automaticamente o C na pretensão de me ensinar a nova grafia.

De forma que, aos poucos, sem precisar de ajuda, eu próprio vou tirando as consoantes que, ao que parece, estavam a mais na língua portuguesa.

Custa-me despedir-me daquelas letras que tanto fizeram por mim.

São muitos anos de convívio.

Lembro-me da forma discreta e silenciosa como todos estes CCC's e PPP's me acompanharam em tantos textos e livros desde a infância. Na primária, por vezes gritavam ofendidos na caneta vermelha da professora:  - não te esqueças de mim! Com o tempo, fui-me habituando à sua existência muda, como quem diz, sei que não falas, mas ainda bem que estás aí. E agora as palavras já nem parecem as mesmas.

O que é ser pro ativo?

Custa-me admitir que, de um dia para o outro, passei a trabalhar numa redação, que há espetadores nos espetáculos e alguns também nos frangos, que os atores atuam e que, ao segundo ato, eu ato os meus sapatos.

Depois há os intrusos, sobretudo o R, que tornou algumas palavras arrevesadas e arranhadas, como neorrealismo ou autorretrato.

Caíram hífenes e entraram RRR's que andavam errantes. É uma união de facto, e  para não errar tenho a obrigação de os acolher como se fossem família. Em 'há de' há um divórcio, não vale a pena criar uma linha entre eles, porque já não se entendem. Em veem e leem, por uma questão de fraternidade, os EEE's passaram a ser gémeos, nenhum usa ( ^^^) chapéu.

E os meses perderam importância e dignidade; não havia motivo para terem privilégios. Assim, temos  janeiro, fevereiro, março, são tão importantes como peixe, flor, avião. Não sei se estou a ser suscetível, mas sem P, algumas palavras são uma autêntica deceção, mas por outro lado é ótimo que já não tenham.

As palavras transformam-nos.

Como um menino que muda de escola, sei que vou ter saudades, mas é tempo de crescer e encontrar novos amigos. Sei que tudo vai correr bem, espero que a ausência do C não me faça perder a direção, nem me fracione, e nem quero tropeçar em algum objeto. Porque, verdade seja dita, hoje em dia, não se pode ser atual nem atuante com um C a atrapalhar.

Só não percebo porque é que temos que ser NÓS a alterar a escrita, se a LÍNGUA É NOSSA ...? ! ? !     
Os ingleses não o fizeram, os franceses desde 1700 que não mexem na sua língua e porquê nós ?

 Ou atão deichemos que os 35 por cento de anal fabetos afroamaricanos fassão com que a nova ortografia imponha se bué depréça !

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Jogo da Morte, no 3º Reich.

A história do futebol mundial inclui milhares de episódios emocionantes e comoventes, mas seguramente nenhum foi tão terrível como o protagonizado pelos jogadores do Dinamo de Kiev nos anos 40.

Os jogadores realizaram um partida sabendo que se ganhassem seriam mortos, no entanto, decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, pelo seu dramatismo, outro caso similar no mundo. Para compreender a sua decisão, é necessário conhecer como chegaram a jogar aquela decisiva partida, e porque um simples encontro de futebol representou para eles o momento crucial das suas vidas.

Tudo começou em 19 de Setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazi, tendo os exércitos de Hitler aplicado um regime de punição impiedoso, arrasando tudo, e todos que lhes fizessem frente.

A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazis, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver em casas. Assim, todos deambulavam pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido guarda-redes do Dinamo de Kiev.

Josef Kordik, um padeiro alemão, era um apoiante fanático da equipe de futebol do Dinamo. Um dia enquanto caminhava numa rua, olhou para um mendigo e de imediato reparou que aquela figura esquálida e andrajosa, era o seu ídolo: o gigante guarda redes, Trusevich.

Mediante artimanhas, o comerciante alemão, enganou os seus compatriotas, e contratou Nikolai Trusevich, o guarda redes para trabalhar na sua padaria. A ânsia, provocada pela vontade de ajudar foi valorizado pelo jogador, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um tecto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade e poder ajudar o seu idolo.

Na convivência, as conversas giravam sempre em torno do futebol e do Dinamo de Kiev, até que o padeiro teve uma ideia genial: sugeriu a Trusevich que em vez de trabalhar como ele, amassando pães, se dedicasse a procurar o resto dos seus colegas de equipe. Não só continuaria a pagar-lhe, como juntos podiam salvar os outros jogadores. Trusevich, ercorreu o que restara da cidade devastada, dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, os seus colegas da équipe de futebol do Dinamo.

Kordik deu trabalho a todos, esforçando-se para que ninguém descobrisse a manobra.Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e incorporou-os na equipe em formação. Em poucas semanas, a padaria escondia entre os seus empregados uma equipe de futebol completa.

Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o passo seguinte, e decidiram, alentados pelo seu protector, voltar a jogar. Era, para além de escapar ao rigoroso control do exército ocupante, a única coisa que sabiam fazer. Muitos tinham perdido as suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última rotina, mantida das suas vidas anteriores.

Como o Dinamo era uma entidade proscrita, proibida, tiveram que dar um novo nome áquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através dos sue contactos alemães começaram a desafiar as equipas de soldados inimigos e selecções formadas no III Reich.

Em 7 de Junho de 1942, jogaram a sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. O seu rival seguinte foi a equipa de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois deram 11 a zero, a uma equipa romena.

A coisa ficou séria quando em 17 de Julho enfrentaram uma equipa do exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazis começaram a ficar incomodados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e procuraram reunir uma equipa mais bem organizada, para derrotar aquela equipe de maltrapilhos, esfomeados. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de os derrotar, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou 3 a 2 num segundo jogo.

Em 6 de Agosto, convencidos da sua superioridade, os alemães prepararam uma equipa com membros da Luftwaffe, o Flakelf, esta sim, uma grande equipa de futebol, que era utilizada como instrumento de propaganda, pelos generais de Hitler.

Os alemães tinham resolvido encontrar a melhor, a mais forte equipe que pudesse acabar de vez com a invencibilidade do FC Start, que já gozava de enorme popularidade entre o sofrido povo Ucraniano. A surpresa foi grande, porque apesar da violência e falta de desportivismo dos alemães, o Start venceu por 5 a 1.

Depois desta escandalosa derrota da equipa de Hitler, os alemães descobriram a manobra de Josef Kordik, o padeiro. Face aos acontecimentos, Berlim decretou a morte de toda a equipe, inclusivé a morte do padeiro. Mas os esbirros nazis locais não se contentaram só com isso. Não queriam que a última imagem da equipe Ucraniana, fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam mais que perpetuar a derrota alemã.

A superioridade da raça ariana, em particular no desporto, era uma obsessão de Hitler e dos altos comandos alemães. Por essa razão, antes de fuzilá-los, queriam derrotar a equipa num outro jogo.

Com um clima tremendo de terror, pressões e ameaças sobre todas as partes, anunciou-se o jogo de desforra para 9 de Agosto, no estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo:

"Vou ser o árbitro do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazi.

Já em campo, os jogadores do Start, levantaram o braço, mas no momento da saudação, levaram a mão ao peito e no lugar de dizer: -"Heil Hitler !", gritaram - "Fizculthura !", uma expressão russa que proclamava a cultura física.

Os alemães marcaram o primeiro golo, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo a ganhar por 2 a 1.

Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:

"Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial das SS. Os jogadores, aterrorizados, pensaram em não voltar para o segundo tempo. Mas ao pensarem no que poderia acontecer ás suas famílias, e em homenagem a todos os seus apoiantes que nas bancadas, os incentivavam, decidiram regressar ao terreno de jogo.

E aí, deram um verdadeiro "baile" á equipe alemã. Perto do fim do jogo, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o guarda redes alemão. Driblou-o, deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar isolado, em frente á baliza, quando todos esperavam o golo, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de superioridade total. O estádio explodiu em uníssono num grito de vitória, de revolta, ante o olhar incrédulo dos alemães.

Com toda a cidade de Kiev, atenta ao acontecimento, os ocupantes germânicos, deixaram que todos saíssem do campo como se nada tivesse acontecido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois desta última partida, a Gestapo visitou a padaria.

O primeiro a morrer torturado em frente a todos os outros foi Josef Kordik, o padeiro. Os demais foram presos e enviados para os campos de concentração de Siretz. Aí assassinaram brutalmente, Kuzmenko, Klimenko e o Trusevich, que morreu envergando a canisola do FC Start.

Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, foram os únicos que sobreviveram, escondidos, até a libertação de Kiev em Novembro de 1943. O resto da equipa foi torturado até a morte.

Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um lugar vitalício, gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, ergue-se actualmente um monumento que recorda aqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.

Foram todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas há uma lembrança, uma fotografia que, para os apoiantes do Dinamo, vale mais que todas as jóias do mundo. Ali figuram os nomes dos jogadores. Abaixo a única foto que se conserva da heróica equipa do Dinamo e o nome dos seus jogadores.

Na Ucrânia, os jogadores do FC Start hoje são heróis da pátria e o seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios.

No estádio Zenit uma placa diz

"Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazi".

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O Quarto Reich...A guerra pode ter já recomeçado

A inflamada declaração de Angela Merkel, numa entrevista à televisão pública alemã, ARD, em que sugere a perda de soberania para os países incumpridores das metas orçamentais, bem como a revelação sobre o papel da célebre família alemã Quandt, durante o Terceiro Reich, ligam-se, como peças de puzzle, a uma cadeia de coincidências inquietantes.

Gunther Quandt foi, nos anos 40, o patriarca de uma família que ainda hoje controla a BMW e gere uma fortuna de 20 mil milhões de euros. Compaghon de route de Hitler, filiado no partido Nazi, relacionado com Joseph Goebbels, Quandt beneficiou, como quase todos os barões da pesada indústria alemã, de mão-de-obra escrava, recrutada entre judeus, polacos, checos, húngaros, russos, mas também franceses e belgas.

Depois da guerra, um seu filho, Herbert, também envolvido com Hitler, salvou a BMW da insolvência, tornando-se, no final dos anos 50, uma das grandes figuras do milagre económico alemão. Esta investigação, que iliba a BMW mas não o antigo chefe do clã Quandt, pode ser a abertura de uma verdadeira caixa de Pandora. Afinal, o poderio da indústria alemã assentaria diretamente num sistema bélico baseado na escravatura, na pilhagem e no massacre. E os seus beneficiários nunca teriam sido punidos, nem os seus empórios desmantelados.

As discussões do pós-Guerra, incluíam, para alguns estrategas, a desindustrialização pura e simples da Alemanha - algo que o Plano Marshal, as necessidades da Guerra Fria e os fundadores da Comunidade Económica Europeia evitaram.

Assim, o poderio teutónico manteve-se como motor da Europa. Gunther e Herbert Quandt foram protagonistas deste desfecho.

Esta história invoca um romance recente de um jornalista e escritor de origem britânica, a viver na Hungria, intitulado "O protocolo Budapeste". No livro, Adam Lebor ficciona sobre um suposto diretório alemão, que teria como missão restabelecer o domínio da Alemanha, não pela força das armas, mas da economia. Um dos passos fulcrais seria o da criação de uma moeda única que obrigasse os países a submeterem-se a uma ditadura orçamental imposta desde Berlim.

O outro, descapitalizar os Estados periféricos, provocar o seu endividamento, atacando-os, depois, pela asfixia dos juros da dívida, de forma a passar a controlar, por preços de saldo, empresas estatais estratégicas, através de privatizações forçadas. Para isso, o diretório faria eleger governos dóceis em toda a Europa, munindo-se de políticos-fantoche em cargos decisivos em Bruxelas - presidência da Comissão e, finalmente, presidência da União Europeia.

Adam Lebor não é português - nem a narração da sua trama se desenvolve cá. Mas os pontos de contacto com a realidade, tão eloquentemente avivada pelas declarações de Merkel, são irresistíveis. Aliás, "não é muito inteligente imaginar que numa casa tão apinhada como a Europa, uma comunidade de povos seja capaz de manter diferentes sistemas legais e diferentes conceitos legais durante muito tempo."

Quem disse isto foi Adolf Hitler. A pax germânica seria o destino de "um continente em paz, livre das suas barreiras e obstáculos, onde a história e a geografia se encontram, finalmente, reconciliadas" - palavras de Giscard d'Estaing, redator do projeto de Constituição europeia.

É um facto que a Europa aparenta estar em paz. Mas a guerra pode ter já recomeçado.

Por: Filipe Luis, na Visão.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sopram ventos de mudança.Será uma nova revolução ?

Há cerca de 3 ou 4 meses começaram a dar-se alterações profundas, e de nível global, em 10 dos principais factores que sustentam a sociedade actual. Num processo rápido e radical, que resultará em algo novo, diferente e porventura traumático, com resultados visíveis dentro de 6 a 12 meses, que irá mudar a nossa sociedade e a nossa forma de vida nos próximos 15 ou 25 anos!

O mesmo ocorreu noutros períodos da história recente: no status político-industrial saído da Europa do pós-guerra, nas alterações induzidas pelo Vietname/ Woodstock/ Maio de 68, além e aquém Atlântico, ou na crise do petróleo de 73.

Façamos um rápido balanço da mudança, e do que está a acontecer.

1º- A Crise Financeira Mundial: desde há 8 meses que o Sistema Financeiro Mundial está à beira do colapso (leia-se "bancarrota") e só se tem aguentado porque os 4 grandes Bancos Centrais mundiais - a FED, o BCE, o Banco do Japão e o Tesouro Britânico - têm injectado (eufemismo que quer dizer: "emprestado virtualmente à taxa zero") montantes astronómicos e inimagináveis no Sistema Bancário Mundial, sem o qual este já teria ruído como um castelo de cartas. Ainda ninguém sabe o que virá, ou como irá acabar esta história !...

2º- A Crise do Petróleo : Desde há 6 meses que o petróleo entrou na espiral de preços. Não há a mínima ideia/teoria de como irá terminar. Duas coisas são porém claras: primeiro, o petróleo jamais voltará aos níveis de 2007 (ou seja, a alta de preço é adquirida e definitiva, devido à visão estratégica da China e da Índia que o compram e amealham!) e começarão rapidamente a fazer sentir-se os efeitos dos custos de energia, de transportes, de serviços. Por exemplo, quem utiliza frequentemente o avião, assistiu há 2 semanas a uma subida no preço dos bilhetes de... 50% (leu bem: cinquenta por cento). É escusado referir as enormes implicações sociais deste factor: basta lembrar que por exemplo toda a indústria de férias e turismo de massas para as classes médias (que, por exemplo, em Portugal ou Espanha representa 15% do PIB) irá virtualmente desaparecer em 12 meses! Acabaram as viagens de avião baratas (...e as férias massivas!), a inflação controlada, etc...

3º- A Contracção da Mobilidade : fortemente afectados pelos preços do petróleo, os transportes de mercadorias irão sofrer contracção profunda e as trocas físicas comerciais (que sempre implicam transporte) irão sofrer fortíssima retracção, com as óbvias consequências nas indústrias a montante e na interpenetração económica mundial.

4º- A Imigração: a Europa absorveu nos últimos 4 anos cerca de 40 milhões de imigrantes, que buscam melhores condições de vida e formação, num movimento incessante e anacrónico (os imigrantes são precisos para fazer os trabalhos não rentáveis, mas mudam radicalmente a composição social de países-chave como a Alemanha, a Espanha, a Inglaterra ou a Itália). Este movimento irá previsivelmente manter-se nos próximos 5 ou 6 anos! A Europa terá em breve mais de 85 milhões de imigrantes que lutarão pelo poder e melhor estatuto sócio-económico (até agora, vivemos nós em ascensão e com direitos à custa das matérias-primas e da pobreza deles)!

5º- A Destruição da Classe Média : quem tem oportunidade de circular um pouco pela Europa apercebe-se que o movimento de destruição das classes médias (que julgávamos estar apenas a acontecer em Portugal e à custa deste governo) está de facto a "varrer" o Velho Continente! Em Espanha, na Holanda, na Inglaterra ou mesmo em França os problemas das classes médias são comuns e (descontados alguns matizes e diferente gradação) as pessoas estão endividadas, a perder rendimentos, a perder força social e capacidade de intervenção.

6º- A Europa Morreu: embora ainda estejam projectar o cerimonial do enterro, todos os Euro-Políticos perceberam que a Europa moribunda já não tem projecto, já não tem razão de ser, que já não tem liderança e que já não consegue definir quaisquer objectivos num "caldo" de 27 países com poucos ou nenhuns traços comuns!... Já nenhum Cidadão Europeu acredita na "Europa", nem dela espera coisa importante para a sua vida ou o seu futuro! O "Requiem" pela Europa e dos "seus valores" foi chão que deu uvas: deu-se há dias na Irlanda!

7º- A China ao assalto! Contou-me um profissional do sector: a construção naval ao nível mundial comunicou aos interessados a incapacidade em satisfazer entregas de barcos nos próximos 2 anos, porque TODOS os estaleiros navais do Mundo têm TODA a sua capacidade de construção ocupada por encomendas de navios.... da China. O gigante asiático vai agora "atacar" o coração da Indústria europeia e americana (até aqui foi just a joke...). Foram apresentados há dias no mais importante Salão Automóvel mundial os novos carros chineses. Desenhados por notáveis gabinetes europeus e americanos, Giuggiaro e Pininfarina incluídos, os novos carros chineses são soberbos, réplicas perfeitas de BMWs e de Mercedes (eu já os vi!) e vão chegar à Europa entre os 8.000 e os 19.000 euros! E quando falamos de Indústria Automóvel ou Aeroespacial europeia...helás! Estamos a falar de centenas de milhar de postos de trabalhos e do maior motor económico, financeiro e tecnológico da nossa sociedade. À beira desta ameaça, a crise do têxtil foi uma brincadeira de crianças! (Os chineses estão estrategicamente em todos os cantos do mundo a escoar todo o tipo de produtos da China, que está a qualificá-los cada vez mais).

8º- A Crise do Edifício Social: As sociedades ocidentais terminaram com o paradigma da sociedade baseada na célula familiar! As pessoas já não se casam, as famílias tradicionais desfazem-se a um ritmo alucinante, as novas gerações não querem laços de projecto comum, os jovens não querem compromissos, dificultando a criação de um espírito de estratégias e actuação comum...

9º- O Ressurgir da Rússia/Índia : para os menos atentos: a Rússia e a Índia estão a evoluir tecnológica, social e economicamente a uma velocidade estonteante! Com fortes lideranças e ambições estratégicas, em 5 anos ultrapassarão a Alemanha!

10º- A Revolução Tecnológica : nos últimos meses o salto dado pela revolução tecnológica (incluindo a biotecnologia, a energia, as comunicações, a nano tecnologia e a integração tecnológica) suplantou tudo o previsto e processou-se a um ritmo 9 vezes superior à média dos últimos 5 anos!

Eis pois, a Revolução!

Tal como numa conta de multiplicar, estes dez factores estão ligados por um sinal de "vezes" e, no fim, têm um sinal de "igual". Mas o resultado é ainda desconhecido e... imprevisível. Uma coisa é certa: as nossas vidas vão mudar radicalmente nos próximos 12 meses e as mudanças marcar-nos-ão (permanecerão) nos próximos 10 ou 20 anos, forçando-nos a ter carreiras profissionais instáveis, com muito menos promoções e apoios financeiros, a ter estilos de vida mais modestos, recreativos e ecológicos.

Espera-nos o Novo, o Desconhecido, o Incerto! Como em todas as Revoluções!

Para terminar, leiam e meditem na frase da filósofa russo-americana Ayn Rand, judia, fugitiva da revolução russa, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920.

"Quando você perceber que, para produzir, precisa de obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem não negoceia com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em auto-sacrifício; então poderá afirmar sem temor de errar, que a sua sociedade está condenada".

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Da traição, á angustia da chegada.

Vivem-se vidas inteiras sem conhecer o desespero.

Mas esse sentimento pungente, amargo, rude, foi partilhado em 1975 por centenas de milhares de portugueses em Angola sobretudo; centenas de milhares em Moçambique, na Guiné (até em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, e Timor).

Cidades inteiras de pessoas felizes, prósperas, esperançosas, com uma absurda confiança no futuro, viram-se de repente sem vida social, sem emprego, sem casa, com o dinheiro congelado nos bancos e um terrível sentimento de perigo em relação às suas vidas e às da sua família. O desespero tem espinhos, alguns aguçados, e os seus bicos empurram as pessoas para o abismo.

No início de Maio de 1975, em Luanda, um grupo de 2.500 residentes em Angola anunciou que não conseguindo obter passagens aéreas ou marítimas para Lisboa, tencionava fazer a viagem até Portugal por via rodoviária, atravessando oito mil quilómetros de países africanos no sentido sul-norte ao longo de 90 dias. A caravana motorizada esteve organizada para ser constituída por 200 camiões e 500 automóveis particulares, sendo os suprimentos destinados a 15 camiões-frigoríficos com capacidade para transportar 30 toneladas de alimentos cada um.

Alguns veículos foram transformados em oficinas móveis para fazer face à inclemência do trajecto e um dos organizadores, Guilherme dos Santos, fez contactos formais com a Cruz Vermelha Internacional e com a Comissão das Nações Unidas para os Refugiados para, na medida do possível, ajudarem essa travessia das selvas, savanas e desertos do continente africano.

Acabaram por não avançar para esse louco caminho para a morte.

Mais a sul, porém, houve traineiras a largar de Porto Alexandre, e de Luanda cheias de gente, em direcção a Portugal-Algarve e Madeira onde chegaram, com muita sorte, sem males de maior. Outros barcos de pesca artesanais cruzaram o Atlântico para despejarem no Brasil "os refugiados" que não vieram para Portugal. De entre estes barcos de pesca artesanais alguns acabariam por afundaram no Oceano. E quase todos os que puderam escaparam por terra em direcção à África do Sul e a outros países limítrofes, em alguns casos viajando com máquinas de obras públicas que iam aplainando os acidentes do caminho.

O drama, o luto, o caos, a confusão dominou no primeiro tempo da chegada a Lisboa a cabeça das pessoas. Mais do que a revolta, as pessoas tentavam perceber os acontecimentos, e como é que se poderiam instalar em Portugal. A fase da revolta veio depois.

Na quantidade tremenda de gente que desaguou em Portugal aconteceu de tudo. Uma pequena minoria tinha acautelado o seu património e preparado o seu regresso a Portugal. Outra minoria - precisamente aquela que mais tinha a perder com a "independência" de Angola uma vez que perdera os laços com a metrópole - e nunca acreditou no pior desfecho, não preparou coisa nenhuma, e veio sem nada, absolutamente nada, para além da roupa que trouxe no corpo e muita desta fornecida pela Cruz Vermelha, pelas fugas em plena noite das suas casas em pijamas e descalços, quando dormiam. Algumas centenas, conseguiu trazer alguma coisa, pouca, mas suficiente para o espectáculo dos caixotes que inundou o cais e o aeroporto de Lisboa.

Aos números soma-se a crónica dos ressentimentos sobre a situação, a confusão baralha-se; calam-se os dramas, a angústia, sofresse e chora-se em silêncio. E faz-se o luto pelos familiares ou amigos assassinados.

O ódio é mais espesso que o sangue, mas há momentos em que nem isso adianta...

É QUANDO PORTUGAL E TRAIÇÃO JÁ NÃO SE DISTINGUEM!


Rogéria Gillemans, Aqui:

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O "grande", Mário Soares. Ou, o grande manipulador ?

Clara Ferreira Alves, escreveu no Expresso

Tudo o que aqui relato é verdade. Se quiserem, podem processar-me.

Eis parte do enigma. Mário Soares, num dos momentos de lucidez que ainda vai tendo, veio chamar a atenção do Governo, na última semana, para a voz da rua.

A lucidez, uma das suas maiores qualidades durante uma longa carreira política. A lucidez que lhe permitiu escapar à PIDE e passar um bom par de anos num exílio dourado, em hotéis de luxo de Paris.

A lucidez que lhe permitiu conduzir da forma "brilhante" que se viu o processo de descolonização.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que os Estados Unidos financiassem o PS durante os primeiros anos da Democracia.

A lucidez que o fez meter o socialismo na gaveta durante a sua experiência governativa.

A lucidez que lhe permitiu tratar da forma despudorada amigos como Jaime Serra, Salgado Zenha, Manuel Alegre e tantos outros.

A lucidez que lhe permitiu governar sem ler os "dossiers".

A lucidez que lhe permitiu não voltar a ser primeiro-ministro depois de tão fantástico desempenho no cargo.

A lucidez que lhe permitiu pôr-se a jeito para ser agredido na Marinha Grande e, dessa forma, vitimizar-se aos olhos da opinião pública e vencer as eleições presidenciais.

A lucidez que lhe permitiu, após a vitória nessas eleições, fundar um grupo empresarial, a Emaudio, com "testas de ferro" no comando e um conjunto de negócios obscuros que envolveram grandes magnatas internacionais.

A lucidez que lhe permitiu utilizar a Emaudio para financiar a sua segunda campanha presidencial.

A lucidez que lhe permitiu nomear para Governador de Macau Carlos Melancia, um dos homens da Emaudio.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume ao caso Emaudio e ao caso Aeroporto de Macau e, ao mesmo tempo, dar os primeiros passos para uma Fundação na sua fase pós-presidencial.

A lucidez que lhe permitiu ler o livro de Rui Mateus, "Contos Proibidos", que contava tudo sobre a Emaudio, e ter a sorte de esse mesmo livro, depois de esgotado, jamais voltar a ser publicado.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume as "ligações perigosas" com Angola, ligações essas que quase lhe roubaram o filho no célebre acidente de avião na Jamba (avião esse transportando de diamantes, no dizer do então Ministro da Comunicação Social de Angola).

A lucidez que lhe permitiu, durante a sua passagem por Belém, visitar 57 países ("record" absoluto para a Espanha - 24 vezes - e França - 21), num total equivalente a 22 voltas ao mundo (mais de 992 mil quilómetros).

A lucidez que lhe permitiu visitar as Seychelles, esse território de grande importância estratégica para Portugal, aproveitando para dar uma voltinha de tartaruga.

A lucidez que lhe permitiu, no final destas viagens, levar para a Casa-Museu João Soares uma grande parte dos valiosos presentes oferecidos oficialmente ao Presidente da Republica Portuguesa.

A lucidez que lhe permitiu guardar esses presentes numa caixa-forte blindada daquela Casa, em vez de os guardar no Museu da Presidência da República.

A lucidez que lhe permite, ainda hoje, ter 24 horas por dia de vigilância paga pelo Estado nas suas casas de Nafarros, Vau e Campo Grande.

A lucidez que lhe permitiu, abandonada a Presidência da República, constituir a Fundação Mário Soares. Uma fundação de Direito privado que, vivendo à custa de subsídios do Estado, tem apenas como única função visível ser depósito de documentos valiosos de Mário Soares. Os mesmos que, se são valiosos, deviam estar na Torre do Tombo.

A lucidez que lhe permitiu construir o edifício-sede da Fundação violando o PDM de Lisboa, segundo um relatório do IGAT, que decretou a nulidade da licença de obras.

A lucidez que lhe permitiu conseguir que o processo das velhas construções que ali existiam e que se encontrava no Arquivo Municipal fosse requisitado pelo filho e que acabasse por desaparecer convenientemente num incêndio dos Paços do Concelho.

A lucidez que lhe permitiu receber do Estado, ao longo dos últimos anos, donativos e subsídios superiores a um milhão de contos.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre os vários subsídios, um de quinhentos mil contos, do Governo Guterres, para a criação de um auditório, uma biblioteca e um arquivo num edifico cedido pela Câmara de Lisboa.

A lucidez que lhe permitiu receber, entre 1995 e 2005, uma subvenção anual da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o seu filho era Vereador e Presidente.

A lucidez que lhe permitiu que o Estado lhe arrendasse e lhe pagasse um gabinete, a que tinha direito como ex-presidente da República, na... Fundação Mário Soares.

A lucidez que lhe permite que, ainda hoje, a Fundação Mário Soares receba quase 4 mil euros mensais da Câmara Municipal de Leiria.

A lucidez que lhe permitiu fazer obras no Colégio Moderno, propriedade da família, sem licença municipal, numa altura em que o Presidente era... João Soares.

A lucidez que lhe permitiu silenciar, através de pressões sobre o director do "Público", José Manuel Fernandes, a investigação jornalística que José António Cerejo começara a publicar sobre o tema.

A lucidez que lhe permitiu candidatar-se a Presidente do Parlamento Europeu e chamar dona de casa, durante a campanha, à vencedora Nicole Fontaine.

A lucidez que lhe permitiu considerar Jose Sócrates "o pior do guterrismo" e ignorar hoje em dia tal frase como se nada fosse.

A lucidez que lhe permitiu passar por cima de um amigo, Manuel Alegre, para concorrer às eleições presidenciais mais uma vez.

A lucidez que lhe permitiu, então, fazer mais um frete ao Partido Socialista.

A lucidez que lhe permitiu ler os artigos "O Polvo" de Joaquim Vieira na "Grande Reportagem", baseados no livro de Rui Mateus, e assistir, logo a seguir, ao despedimento do jornalista e ao fim da revista.

A lucidez que lhe permitiu passar incólume depois de apelar ao voto no filho, em pleno dia de eleições, nas últimas Autárquicas.

No final de uma vida de lucidez, o que resta a Mário Soares? Resta um punhado de momentos em que a lucidez vem e vai. Vem e vai. Vem e vai. Vai... e não volta mais.

Clara Ferreira Alves
Expresso

Tendo a implementação da Democracia em Portugal mentores como Mário Soares, não admira que a versão instalada no país esteja obsoleta. O sistema precisa, urgentemente, de uma profunda renovação, ou seja, de novos protagonistas.

Obrigado, Clara.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Carta da Marisa Moura à administração da Carris

Exmos. Senhores José Manuel Silva Rodrigues, Fernando Jorge Moreira da Silva, Maria Isabel Antunes, Joaquim José Zeferino e Maria Adelina Rocha,

Chamo-me Marisa Sofia Duarte Moura e sou a contribuinte nº 215860101 da República Portuguesa. Venho por este meio colocar-vos, a cada um de vós, algumas perguntas:

Sabia que o aumento do seu vencimento e dos seus colegas, num total extra de 32 mil euros, fixado pela comissão de vencimentos numa altura em que a empresa apresenta prejuízos de 42,3 milhões e um buraco de 776,6 milhões de euros, representa um crime previsto na lei sob a figura de gestão danosa?

Terá o senhor(a) a mínima noção de que há mais de 600 mil pessoas desempregadas em Portugal neste momento por causa de gente como o senhor(a) que, sem qualquer moral, se pavoneia num dos automóveis de luxo que neste momento custam 4.500 euros por mês a todos os contribuintes?

A dívida do país está acima dos 150 mil milhões de euros, o que significa que eu estou endividada em 15 mil euros. Paguei em impostos no ano passado 10 mil euros. Não chega nem para a minha parte da dívida colectiva. E com pessoas como o senhor(a) a esbanjar desta forma o meu dinheiro, os impostos dos contribuintes não vão chegar nunca para pagar o que realmente devem pagar: o bem-estar colectivo.

A sua cara está publicada no site da empresa. Todos os portugueses sabem, portanto, quem é. Hoje, quando parar num semáforo vermelho, conseguirá enfentar o olhar do condutor ao lado estando o senhor(a) ao volante de uma viatura paga com dinheiro que a sua empresa não tem e que é paga às custas da fome de milhares de pessoas, velhos, adultos, jovens e crianças?

Para o senhor auferir do seu vencimento, agora aumentado ilegalmente, e demais regalias, há 900 mil pessoas a trabalhar (inclusive em empresas estatais como a "sua") sem sequer terem direito a Baixa se ficarem doentes, porque trabalham a recibos verdes. Alguma vez pensou nisso? Acha genuinamente que o trabalho que desempenha tem de ser tamanhamente bem remunerado ao ponto de se sobrepôr às mais elementares necessidades de outros seres humanos?

Despeço-me sem grande consideração, mas com alguma pena da sua pessoa e com esperança que consiga reactivar alguns genes da espécie humana que terá com certeza perdido algures no decorrer da sua vida.

Marisa Moura

Nota do Editor: Esta carta, foi motivada pela noticia do Publico de 01.04.2011:
Carris: administração recebeu viaturas topo de gama em ano de buraco financeiro de 776,6 milhões

sábado, 19 de novembro de 2011

Recordação do Dundo N.º 4 - O tesouro que deixei na minha terra

Uma das recordações que guardo, bem nítida, das minhas brincadeiras com o José Manuel Sotta, que vivia na casa oposta à minha, do lado das traseiras, foi um episódio singelo dos meus divertimentos de criança, passado numa mata de pequenas árvores, arbustos e canaviais, por trás da casa dele, do outro lado da rua dos cavalos. Fomos para lá brincar, inicialmente para fazer vários pequenos montes com as folhas secas que cobriam o chão, numa clareira da mata, atear-lhes fogo e assistir ao espectáculo grandioso das chamas a crescer!

Quando lá chegamos, ainda fizemos um ou dois montes, bem granditos, mas, depois, ficamos receosos das consequências de pegar fogo àquilo. Imaginámos as labaredas, altas, a consumir aquele combustível e a alastrar o fogo ao resto da vegetação. Imaginamos o alarme geral que a situação provocaria e os nossos pais, especialmente o meu, a correr para nós, no meio das chamas e do fumo, de cinto na mão, prontos para nos "aquecer" as costas e outras partes do corpo. Imaginamos ainda o supremo sofrimento que seria ficarmos, dias e dias de castigo, fechados no quarto, sem sair para brincar, nem comer doces à sobremesa. Para além de sermos, ainda, obrigados a gramar a sopa, a que, nos dias "normais" e com frequência, conseguíamos escapar.

Desistimos. Olhamos para o chão limpo de folhas, com a terra cheirosa à vista, e, aí, tive a ideia de propor ao meu companheiro que abríssemos um buraco, bem fundo, e que, no maior secretismo, lá enterrássemos um "tesouro".

Que tesouro, perguntou-me ele. Não foi logo que lhe dei a resposta. Dei tratos à imaginação, até que me surgiu uma ideia brilhante. Corri até casa, que distava dali uns bons cem a duzentos metros, e trouxe comigo, para além de papel e lápis, uma pequena carteira de bolso, vazia, em cabedal ordinário de cor acastanhada, com vários compartimentos para moedas e notas. Alguém, há bastante tempo, ma havia oferecido, provavelmente os meus pais, numa das férias no puto.

Pouco depois, cheguei junto do Sotta, esbaforido e a suar, e propus-lhe, ofegante e numa grande excitação, que o "tesouro" fosse aquela carteira, depois de lhe pormos dentro um papel, muito bem dobrado, onde escreveríamos, com letra desenhada a preceito, uma mensagem. Destinada a ser lida por quem, um dia, encontrasse o tesouro. Já não me recordo o que escrevemos, para além dos nossos nomes e da data daquele dia venturoso, em que, no último instante, trocamos uma má acção, que não cometemos, pela oferta de um "tesouro" aos vindouros.

A carteira e a mensagem que guardava, lá ficaram, bem fundas no buraco que as nossas minúsculas mãos, com a ajuda de alguns paus, conseguiram abrir. Sei que guardamos, religiosamente, completo segredo do nosso "tesouro". Recordo-me ainda que, dias depois, regressamos à clareira para confirmar se ele estaria intacto, mas não conseguimos encontrá-lo. Havíamos cometido a imprudência de não assinalar, num mapa e com algumas marcas no local, a sua posição.

Ainda bem, digo eu agora! Passados todos estes anos, não sei se alguém, durante a construção de alguma daquelas pequenas casas, ou cubatas, que se vêm nas imagens do Google Earth, encontrou o nosso tesouro e leu a mensagem. Sei que foi a única coisa de material, a que associei a imaterialidade de um sentimento que me ligou ao local, que deixei enterrada no chão da minha terra. Terra, que, passados mais de cinquenta anos, nunca mais visitei!

Oxalá que ninguém tenha encontrado o "tesouro". Pode ser que seja eu, um dia destes, a encontrá-lo, numa das viagens imaginárias que, com regularidade, faço à minha terra e à minha casa. Ficarei a saber o que, em cuidadosa letra de forma, escrevi naquele pequeno papel!

Toni Dinis

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Recordação do Dundo N.º 3 - Chicuco e a procriação

Soube, há já alguns anos, que, enraizada na crendice ancestral dos Kiokos, residia a certeza de que o sucesso e a qualidade da sua descendência dependiam da mulher, durante a gravidez, copular com o pai da sua criança, e apenas com este, regularmente e com muita frequência. Exigência que aumentava de rigor, nos dias anteriores ao parto.

Só nessa altura, fui capaz de relacionar com esta crença, um episódio da minha infância no Dundo, do qual, ainda hoje, guardo viva recordação.

Num recanto do jardim da minha casa, havia uma frondosa papaieira que, quase encostada à casa, fornecia, durante todo o dia, sombra grande e acolhedora, à qual recorria para as minhas brincadeiras de menino. Próximo da árvore, existia uma sebe, alta mas algo rarefeita, que separava o jardim da horta que servia a casa. A horta era um recinto rectangular, comprido, encaixado entre a nossa casa e a do vizinho do lado.

O meu pai e o nosso criado kioko, Chicuco, de seu nome, cuidavam da horta, sempre com muito desvelo e competência. Os tomateiros, alfaces, couves e outros legumes, cresciam viçosos, ordenados em carreiros muito bem cuidados e judiciosamente regados. O acesso à horta fazia-se, apenas, por uma porta situada num muro que limitava o lado pequeno do recinto, oposto ao da papaieira onde brincava.

Pela tarde de um certo dia quente e luminoso, como sempre eram os dias no Dundo da minha meninice, estava eu à sombra da papaieira, brincando alegre e descuidadamente com outro companheiro de tropelias, quando se me deparou uma cena bizarra. Aproximando-me da sebe, para pegar um dos brinquedos que lá fora parar, vi, por uma nesga entre alguns ramos, no fundo da horta, uma mulher negra, grande e possante, com enorme barriga de grávida, de pé, pernas abertas bem assentes no chão, braços ao alto e vestido para cima, firmemente encostada à parede da casa ao lado.

Vi, também, o Chicuco, de calças na mão e o rabo preto brilhando ao sol, aproximar-se da mulher e fundir-se com ela. Vi aquele kioko, vítima frequente das minhas maldades e partidas inocentes, a trabalhar laboriosamente em prol da descendência, em íntima comunhão com a mulher, os dois num só! Pareciam um farol de luz intermitente, com o reflexo do sol no rabo luzidio do Chicuco, a acender e apagar, em razão dos movimentos de avanço e recuo da função. Era ele a arfar, e ela a gemer! Ele a suar, e ela a gemer! Ele a “bombar”, e ela a gemer! Ele, receoso e apressado, e ela, indolente e a gemer!

Antes que o final surgisse, decidi surpreender o casal e aplicar uma partida ao desgraçado do Chicuco. Deixei o meu companheiro de brincadeira, surpreendido por aquele repente, e desatei a correr, desenfreadamente, dando a volta pelo outro lado da casa, até ao pequeno portão de acesso à horta. Era um trajecto ainda longo, por entre vegetação densa, que me consumiu três ou quatro minutos do meu precioso tempo.

Quando cheguei, já nada vi! As “vítimas” da partida já nem sequer lá estavam! Tamanha frustração para tão penoso esforço! Sorte para a descendência do kioko! O seu futuro não ficou comprometido pelo “coito interruptus” que, seguramente, o meu rompante provocaria! Ainda hoje, o bom do Chicuco, se for vivo, não imagina, sequer, o que esteve para lhe acontecer naquele dia de sorte!

Dois dias depois tivemos notícia que aquela mulher do Chicuco havia dado à luz um rapaz perfeito e saudável. Rechonchudo e alegre. Graças ao empenho e rapidez de acção do pai. Graças, também, à razoável distância e dificuldades do percurso que separava a horta, do meu lugar de brincadeiras.

Porto, 26 de Setembro de 2006

Autor: Toni Dinis.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Um país cheio de gente insuportável

"O senhor Presidente da República parte quarta-feira para os Estados Unidos. Boa viagem. Mas antes de deixar a terrinha fez questão de compartilhar com os portugueses o seu estado de alma sobre os desempregos e os filhos dos que não têm trabalho hoje, amanhã e daqui a uns anos.

Para Cavaco Silva, vão ser tempos insuportáveis. É verdade. Tem toda a razão. Mas essa gente vive a sua tragédia em silêncio, tenta sobreviver por todos os meios possíveis e imaginários. Não tem a protecção de ninguém.

Do poder político, que corta nos subsídios e na sua duração porque não há dinheiro; dos sindicatos, que apenas se preocupam com os afortunados que ainda têm trabalho; dos partidos, que andam preocupados com os direitos adquiridos e com as violações constitucionais dos cortes de ordenados e subsídios de férias e Natal de quem recebe o salário do Estado a tempo e horas; dos empresários incompetentes, que viveram e querem viver encostados ao Estado e que não suportam a mínima concorrência interna ou externa; dos empresários competentes que estão sem crédito na banca, atolados de impostos e burocracia e estão essencialmente preocupados em manter os seus negócios e ter dinheiro ao fim do mês para pagar os salários aos seus trabalhadores.

São, de facto, tempos insuportáveis para quem tem cabeça e dois braços para trabalhar e ninguém lhe dá emprego. Mas mais insuportável é olhar para o país e ver tanta gente insuportável a protestar por tudo e por nada, numa vã e miserável tentativa de manter tudo como dantes, alheia a tudo e a todos, mesmo aos que passam por tempos insuportáveis.

Insuportáveis são as greves dos transportes públicos.

Insuportáveis são os indignados com os cortes nas linhas do Metro ou da Carris.

Insuportáveis são os que marcam paralisações supostamente gerais para manter regalias e direitos que os que vivem tempos insuportáveis há muito perderam.

Insuportáveis são os reitores das universidades públicas que não querem viver com menos dinheiro do Estado.

Insuportáveis são os ecologistas que param obras de barragens por causa de umas árvores e ameaçam pôr no desemprego insuportável centenas de pessoas.

Insuportáveis são os médicos que se gabam de boicotes a medicamentos mais baratos que nem os que vivem tempos insuportáveis podem comprar.

Insuportáveis são as leis para filhos e enteados, que permitem o desemprego para uns e a segurança para outros.

Insuportáveis são os autarcas do regime que usam o seu peso político para não cortarem a sério no endividamento das câmaras.

Insuportáveis são os que fingem não saber a que estado chegou este país miserável em que uns tantos miseráveis se governaram à grande e à francesa durante muitos e bons anos democráticos.

É verdade, senhor Presidente da República. Há muita gente insuportável no país a que o senhor preside.

Talvez desse algum consolo à alma dos que vivem tempos insuportáveis ouvir os carrascos de Portugal pedir desculpa por tudo o que andaram a fazer.

Talvez a vida fosse menos insuportável, mesmo para os que vivem tempos insuportáveis. E para os que vão passar a viver tempos insuportáveis já a seguir."

por António Ribeiro Ferreira, jornalista, director do I